Fazia menos de um ano que o Muro de Berlim caíra e a cidade já estava novamente dividida entre ricos e pobres, triunfo e incerteza. A sala octogonal da Filarmônica, pintada de ocre, construída como um símbolo da rivalidade da Guerra Fria em um terreno desolado nos limites do Mundo Livre, estava agora em uma valorizada área de desenvolvimento, vibrando ao ritmo dos bate-estacas de empresas multinacionais.
Herbert von karajan estava morto, e sua orquestra havia escolhido como regente Claudio Abbado, um italiano reticente, socialista, modernista e elegante. Ele tinha apenas um concerto para ganhar a simpatia dos adoradores de Karajan, e seria este. Abbado escolheu a Primeira Sinfonia de Johannes Brahms, uma obra inserida na consciência germânica como um ato de continuidade cultural - tanto que muitos se referem a ela como a Décima de Beethoven. A sala estava cheia de pessoas idosas, com cabelos prateados e cicatrizes de duelos, e muitos apegados aos preconceitos do passado. Abbado fez com que a platéia se sentisse radiante logo aos primeiros compassos, uma monumental afirmação de absoluta segurança e um som imaculado. Somente algumas poucas frases das madeiras deram alguma sugestão de intenções subversivas. Os movimentos intermediários foram suntuosamente organizados, e o adágio que introduz o finale nunca soara tão brilhante, mesmo sob o olhar a laser de Karajan. Mas, quando a sinfonia chega à apoteose sonora, que o velho maestro costumava abordar com muitas mudanças de marcha e sinais de redenção, Abbado segurou a orquestra, abafando a dinâmica e permitindo que a melodia despontasse imperceptivelmente da textura precedente. Quando ela surge, o mundo é iluminado por uma luz diferente, mais quente e menos agressiva. Foi um momento de eureca, um novo alvorecer. Na manhã seguinte, com este autor e outras pessoas como testemunhas, Abbado assinou um contrato de longa duração com o antigo selo de Karajan e iniciou o processo de transformação da orquestra. Quando ele saiu, uma década depois, poucos músicos de Karajan ainda faziam parte do grupo, e o ethos das execuções evoluíra do antiquadamente soberbo para o elegentemente imponente. A orquestra permaneceu, no entanto, como uma instituição de elite, recusando-se a dar emprego a músicos da ex-Alemanha Oriental ou da parte leste de sua própria Berlim. Apesar de fabulosa, a Sinfonia nº 1 de Brahms foi um falso alvorecer.
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quinta-feira, 23 de julho de 2009
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Brahms: Sonatas para Viola e Piano - Pinchas Zukerman - Daniel Barenboim - DG - NY, Novembro de 1974.
Os contratos de exclusividade das gravadoras excluiam qualquer possibilidade de lançamento de discos do Kosher Nostra, um grupo de destacados músicos, praticamente todos judeus, que gerou exitação no final da década de 60, em concertos no palco e na televisão, numa série de documentários produzidos por Christopher Nupen. Uma execuçaõ célebre do quinteto "A Truta", de Schubert, com Barenboim (piano) sua esposa Jacqueline du Pré (cello), os israelenses Itzak Perlman (violino) e Pinchas Zuckerman (viola) e o regente indiano Zubin Mehta (baixo), nunca foi lançado em disco, embora exista em milhões de bancos de memória visuais e auditivos.
Esta amizade multilateral pode ser ouvida apenas em condições desfavoráveis: ou muito pouco, ou na maioria das vezes gravada tarde demais para captar a excitação do concerto. Uma exceção é este encontro pouco usual com Brahms, tocado no instrumento errado e talvez no continente errado, uma vez que Brahms nunca colocou os pés na América. Barenboim estava em NY ao mesmo tempo que Zukerman, que, igualmente adepto da viola e do violino, sugeriu que eles preenchessem um dia livre com os últimos trabalhos de Brahms, um par de sonatas escritas para clarineta, mas marcadas pelo compositor como igualmente executáveis na viola. A Deustche Grammophon, que preparava um ciclo em homenagem ao centenário de Brahms, decidiu levar adiante o projeto. Em outras mãos, teria sido apenas mais um disco.
Mas a vida de Barenboim tinha sido arrasada pela trágica doença de sua esposa, e sua execução tem um caráter nervoso, espiritual, que provocou em Zukerman o ansioso desejo de tranqülizá-lo, como no final do primeiro movimento da Sonata em Fá Menor, que eles terminam em um trêmulo andamento decrescente. O Andante transforma-se num ato de encorajamento mútuo, levado num compasso que evita a pressão, como numa revigorante conversa. Depois disso, eles começam a se divertir, dois rapazes em NY com o mundo a seus pés, esquecidos dos perigos da mortalidade. A sonata em Mi Bemol Maior, mais amável e langorosa no início, torna-se uma corrida até o final, uma emocionante conclusão para a vida de um grande compositor. O disco foi produzido por Gunther Breest, um futuro grande nome da indústria da gravação, e tudo a respeito dele parece ser como deveria.
Esta amizade multilateral pode ser ouvida apenas em condições desfavoráveis: ou muito pouco, ou na maioria das vezes gravada tarde demais para captar a excitação do concerto. Uma exceção é este encontro pouco usual com Brahms, tocado no instrumento errado e talvez no continente errado, uma vez que Brahms nunca colocou os pés na América. Barenboim estava em NY ao mesmo tempo que Zukerman, que, igualmente adepto da viola e do violino, sugeriu que eles preenchessem um dia livre com os últimos trabalhos de Brahms, um par de sonatas escritas para clarineta, mas marcadas pelo compositor como igualmente executáveis na viola. A Deustche Grammophon, que preparava um ciclo em homenagem ao centenário de Brahms, decidiu levar adiante o projeto. Em outras mãos, teria sido apenas mais um disco.
Mas a vida de Barenboim tinha sido arrasada pela trágica doença de sua esposa, e sua execução tem um caráter nervoso, espiritual, que provocou em Zukerman o ansioso desejo de tranqülizá-lo, como no final do primeiro movimento da Sonata em Fá Menor, que eles terminam em um trêmulo andamento decrescente. O Andante transforma-se num ato de encorajamento mútuo, levado num compasso que evita a pressão, como numa revigorante conversa. Depois disso, eles começam a se divertir, dois rapazes em NY com o mundo a seus pés, esquecidos dos perigos da mortalidade. A sonata em Mi Bemol Maior, mais amável e langorosa no início, torna-se uma corrida até o final, uma emocionante conclusão para a vida de um grande compositor. O disco foi produzido por Gunther Breest, um futuro grande nome da indústria da gravação, e tudo a respeito dele parece ser como deveria.
domingo, 17 de maio de 2009
Brahms: Concerto para piano nº 1 - Arthur Rubinstein - Orquestra Sinfônica de Chicago - Fritz Reiner RCA , Chicago Orchestra Hall
Vencida pela CBS na corrida do LP, a RCA chegou antes na do estéreo. Após algumas sessões experimentais em NY, com o entusiasta do áudio, Leopold Stokovski, os engenheiros foram até Boston para gravar A Danação de Fausto, de Berlioz, sob a regência de Charles Munch. Os resultados foram animadores, mas ficaram aquém do som mono de boa qualidade. Os engenheiros foram então para Chicago, cuja orquestra tinha um novo e rigoroso diretor musical, Fritz Reiner, e o pianista campeão de vendas do selo, Arthur Rubinstein, lá estava para tocar o primeiro concerto para piano composto por Brahms.
regente e solista tiveram um rápido desentendimento, em razão de uma observação casual de Reiner sugerindo que Chopin era um compositor afeminado e provavelmente gay, um insulto levado por Rubinstein para o lado pessoal e nacional, sendo ele também polonês. Em uma atmosfera frígida, os dois profissionais trataram de interpretar o mais caloroso dos concertos, uma tapeçaria sonora romântica ricamente colorida. Rubinstein reinou com sua habitual exuberância e tocou com límpida precisão, com o piano colocado realisticamente um pouco à esquerda, em vez de bem na frente, como ele preferia. Reiner conseguiu extrair um som lindamente lírico da orquestra, abrindo o Adágio com cordas aveludadas e sopros apimentados e mantendo o mais absoluto controle ao longo de três quartos de uma hora muito curta. As gravações de Curzon, Solomon, Brendel e Gilels têm seus defensores, mas a mistura de um solista obstinado e um regente de idéias firmes proporciona um intenso pano de fundo para um música de beleza sublime e estrutura intimidante. Os produtores Richard Mohr e Jack Pfeiffer, com os engenheiros Lewis Layton e Leslie Chase (todos nomes lendários para os audiófilos), limitaram-se a três microfones, cada um para um canal separado, dando uma imagem precisa da esquerda e da direita e uma visão geral do centro. Esta foi a gravação inaugural da era do estéreo, a sessão na qual se provou que o novo sistema valia a pena, e o time voltou em júbilo para suas bases. Para desalento geral, o disco levou quatro anos para ser lançado, tempo durante o qual os selos discutiam a respeito de um formato estéreo único e o público era persuadido a investir em novos aparelhos.
regente e solista tiveram um rápido desentendimento, em razão de uma observação casual de Reiner sugerindo que Chopin era um compositor afeminado e provavelmente gay, um insulto levado por Rubinstein para o lado pessoal e nacional, sendo ele também polonês. Em uma atmosfera frígida, os dois profissionais trataram de interpretar o mais caloroso dos concertos, uma tapeçaria sonora romântica ricamente colorida. Rubinstein reinou com sua habitual exuberância e tocou com límpida precisão, com o piano colocado realisticamente um pouco à esquerda, em vez de bem na frente, como ele preferia. Reiner conseguiu extrair um som lindamente lírico da orquestra, abrindo o Adágio com cordas aveludadas e sopros apimentados e mantendo o mais absoluto controle ao longo de três quartos de uma hora muito curta. As gravações de Curzon, Solomon, Brendel e Gilels têm seus defensores, mas a mistura de um solista obstinado e um regente de idéias firmes proporciona um intenso pano de fundo para um música de beleza sublime e estrutura intimidante. Os produtores Richard Mohr e Jack Pfeiffer, com os engenheiros Lewis Layton e Leslie Chase (todos nomes lendários para os audiófilos), limitaram-se a três microfones, cada um para um canal separado, dando uma imagem precisa da esquerda e da direita e uma visão geral do centro. Esta foi a gravação inaugural da era do estéreo, a sessão na qual se provou que o novo sistema valia a pena, e o time voltou em júbilo para suas bases. Para desalento geral, o disco levou quatro anos para ser lançado, tempo durante o qual os selos discutiam a respeito de um formato estéreo único e o público era persuadido a investir em novos aparelhos.
Horowitz - Tchaikovsky - conc. p/piano nº1 - Brahms - conc. p/piano nº2 - Orq. sinf. da BBC - Arturo Toscanini - RCA(Sony/BMG)
A relação sogro/genro é delicada. Imagine-se a situação na qual o sogro é um católico italiano rígido e disciplinador e o genro é judeu, gay e esquizofrênico. O preço da celebridade para Horowitz e Toscanini foi o fato de serem obrigados a trabalhar juntos em público e em gravações. Eles não pareciam e nem soavam confortáveis juntos, mas no melhor momento deles, uma execução do Concerto de Tchaikovsky no Carnegie Hall, em 1943, eles levantaram mais de 10 milhões de dólares em bônus de guerra e receberam um agradecimento de Roosevelt.
Este disco resgistra um encontro anterior, tenso e confrontativo. A partir dos retumbantes acordes iniciais, o pianista passa a fugir do ritmo da batuta, seguindo sua própria pulsação , num estado de de anarquia que se aproxima do transe hipnótico. O regente faz o possível para manter ao menos uma ilusão de controle social, mas, no segundo movimento o pianista ultrapassa alegremente as madeiras que o acompanham, e corre com a orquestra atrás dele. O final é um palpitante suspiro catártico, como se as relaçoes familiares tivesssem sido restauradas de pronto.
Esta não foi a primeira vez que o concerto de Tchaikovsky foi usado como ringue de boxe, nem a última. Horowitz deixou Thomas Beecham patinando na estréia dos dois em NY, e Richter e Zimerman arrasaram publicamente Karajan em disco. O bombástico nessa música leva ao conflito.
Isso não se aplica ao concerto de Brahms. Horowitz disse a respeito: "eu nunca gostei desse concerto, e toquei muito mal". Além disso minhas idéias e as de Toscanini eram muito diferentes. Ambos disparam num andamento tão rápido, que aparentemente, esperam por um nocaute no 3º movimento. Nenhum dos dois mostra qualquer misericórdia pela partitura. É um inimitável registro da desarmonia humana, precioso em sua obstinada perversidade.
Este disco resgistra um encontro anterior, tenso e confrontativo. A partir dos retumbantes acordes iniciais, o pianista passa a fugir do ritmo da batuta, seguindo sua própria pulsação , num estado de de anarquia que se aproxima do transe hipnótico. O regente faz o possível para manter ao menos uma ilusão de controle social, mas, no segundo movimento o pianista ultrapassa alegremente as madeiras que o acompanham, e corre com a orquestra atrás dele. O final é um palpitante suspiro catártico, como se as relaçoes familiares tivesssem sido restauradas de pronto.
Esta não foi a primeira vez que o concerto de Tchaikovsky foi usado como ringue de boxe, nem a última. Horowitz deixou Thomas Beecham patinando na estréia dos dois em NY, e Richter e Zimerman arrasaram publicamente Karajan em disco. O bombástico nessa música leva ao conflito.
Isso não se aplica ao concerto de Brahms. Horowitz disse a respeito: "eu nunca gostei desse concerto, e toquei muito mal". Além disso minhas idéias e as de Toscanini eram muito diferentes. Ambos disparam num andamento tão rápido, que aparentemente, esperam por um nocaute no 3º movimento. Nenhum dos dois mostra qualquer misericórdia pela partitura. É um inimitável registro da desarmonia humana, precioso em sua obstinada perversidade.
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