Mostrando postagens com marcador Wagner. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Wagner. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Wagner - O Anel dos Nibelungos - Orquestra Filarmônica de Viena - Georg Solti - Decca -Viena
Com uma duração total de quatro noites, ou quinze horas, o ciclo do "Anel dos Nibelungos" de Wagner era longo demais para o disco antes do LP, inviável antes do estéreo e incompatível com os orçamentos que as gravadoras alocavam nos anos 50 e com o que os consumidores estavam dispostos a gastar. O projeto da Decca começou com uma visão do jovem produtor John Culshaw, que visitou Bayreuth e ficou abismado com o nível de ruído de palco que era captado por seus microfones. Caso o Anel viesse a ser gravado, argumentou ele, isso teria de ser feito em estúdio. Ele precisou de seis anos até conseguir o sinal verde para uma versão experimental do "Ouro do Reno", a mais curta das peças do pacote.Culshaw se instalou em uma casa de banhos desativada em Viena, com a melhor orquestra da Europa ao alcance de uma rápida viagem de ônibus. O ciclo era tão raro em países de lingua inglesa que Culshaw era a única pessoa da equipe que já o tinha assistido integralmente no palco. Seu regente era um judeu húngaro prematuramente calvo, que tinha sua base em Frankfurt e era desprezado pelos músicos da Filarmônica de Viena. Os riscos eram perigosamente altos, mas Georg Solti tinha uma abordagem grandiosa do Anel, que Culshaw havia retrabalhado como um conceito puramente aural, livre das distrações visuais. O engenheiro de som Gordon Party foi instruído a simular os sons de cavalgadas e bigornas, quando fosse preciso, sem relinchos e pancadas desnecessárias. Tudo foi organizado para ser apreciado apenas com os ouvidos. Os cantores se distribuíram por três gerações. Kirsten Flagstad, seduzida a deixar sua aposentadoria nos fiordes, cantou Fricka no "Ouro do Reno"; Brunhilde foi interpretada pela inspirada sueca Birgit Nilsson. As donzelas do Reno incluíram a jovem Lucia Popp e Gwyneth Jones; Christa Ludwig foi Wautraute; Joan Sutherlan cantou o pássaro da floresta. Wolfgang Windgassen foi Sigfried, George London e Hans Hotter cantaram Wotan e Dietrich Fischer-Diskeau foi Gunther no "Crepúsculo dos Deuses. Solti impôs sobre as sessões (que se estenderam por sete anos), um controle sobre-humano, nunca tão sutil quanto Knappertsbusch ou Furtwängler, mas de maneira geral, mais acurado. O Anel da Decca fez seu nome internacionalmente e criou um conceito de perfeição em ópera que jamais pôde ser reproduzido no palco.Num empreendimento de tanta magnitude, os detalhes podem ser distorcidos, mas tal foi a consistência do duplo controle exercido por Culshaw e Solti que a menor das partes reflete a grandeza do todo. A introdução orquestral do "Crepúsculo dos Deuses", seguido pelo canto das três Norns - Helen Watts, Grace Hoffman, Anita Välkki - é uma das mais impressionantes sequëncias jamais gravadas, não apenas como prelúdio, mas como um drama autônomo, um ato por si mesmo. Seguida por uma contida Nilsson ao nascer do sol, reservando suas fúrias para o final, a música exerce um efeito hipnótico, irresistível e inesquecível. O mundo germânico, temendo a perda de sua herança, respondeu com gravações do Anel com Karajan, em Berlim, e com Böhm, em Bayreuth. Um Anel totalmente francês, em comemoração ao centenário da obra, dirigido por Patrice Chereau e regido por Pierre Boulez, foi filmado em treze episódios para a TV, em 1976, em Bayreuth. Mais Anéis se seguiram, com Sawalish, Haitink, Janiwsky e Levine. Nenhum deles se iguala ao de Solti em coerência, clareza ou admiração espiritual diante da criação e destruição do mundo.Do mesmo modo, nenhum outro produtor reproduziu a missão democrática de Culshaw. "A doença da ópera", escreveu Culshaw, "é que ela é uma loja fechada, muito cara e exclusiva. Richard Wagner detestava essa atitude cem anos atrás, e apenas agora nós estamos fazendo progresso na direção de uma mudança. Se, mesmo para uma pequena parcela, o Anel gravado em disco contribuiu para essa mudança, acredito que todos nós, de alguma forma conectados com isso, temos uma razão para nos alegrar." Esse ideal artístico foi confirmado pelas maiores vendas jamais alcançadas por uma gravação clássica, resultado que significa que muito mais pessoas ouviram o Anel em disco do que o assistiram no teatro.
domingo, 17 de maio de 2009
Wagner, Tristan und Isolde - Kirsten Flagstad, Ludwig Suthaus, Blanche Thebom -Orquestra Philarmonia - Wilhelm Furtwängler
Esta gravação essencial quase não foi feita. Furtwängler disse à EMI que nunca mais trabalharia com o insidioso produtor Walter Legge, a quem acusava de ter sabotado sua carreira para promover Karajan. Flagstad, a grande intérprete de Isolda, disse à gravadora que não gravaria sem Furtwängler, em quem confiava implicitamente, ou sem Legge, que discretamente se propôs a substituir os dois dós agudos do segundo ato, que ela não conseguia alcançar, pela voz da esposa dele, Elizabeth Schwartzkopf. O impasse era insuperável, e o tempo passava rápido. Flagstad estava com 57 anos e já havia anunciado sua retirada dos palcos.
Chegou-se então a um acordo. Legge pediu desculpas por escrito à Furtwängler por quaisquer danos causados pelos motivos "alegados". O regente, por sua vez, reconheceu a excelência da orquestra londrina de Legge e voltou atrás quanto à sua exigência de gravar em Berlim ou em Bayreuth. O elenco foi rapidamente formado. Tristão e Brangäne foram segundas opções - Lauritz Melchior foi considerado velho demais para o papel de Tristão e Martha Mödl estava prestes a cantar Isolda para o impronunciável karajan. Furtwängler enxertou Suthaus, a quem havia dirigido como Tristão em 1947; Flagstad recomendou Thebom, uma americana de origem sueca, sua protegida. Josef Greindl e Dietrich Fischer-Diskeau cantaram ótimos Rei Mark e Kurnewal. Os holofotes, no entanto, ficaram para o regente e o soprano. Flagstad canta uma Isolda capaz de derreter um iceberg, mais carinhoso do que erótico; seu amor por Tristão se aprofunda com a maturidade. Seu som enche o espaço como uma inundação, não deixando espaço algum para a descrença. Furtwängler, intelectualmente desconfortável com a indústria da gravação, jamais regera uma ópera em estúdio. Ele reprovou a sala do subsolo e o ruído dos trens passando ao lado, o que não o impediu de conduzir com tranquila segurança e assumir inspirados riscos; sua saúde estava abalada, e ele vivia ansioso por deixar um legado de sua interpretação.
Quando tudo terminou, ele colocou um braço em volta dos ombros de Legge e disse: "Meu nome será sempre lembrado por isso, mas é o seu que deveria ser." Legge revelou, em caráter privado, que este foi o único elogio que ele recebeu do maestro em quarenta gravações que fizeram juntos. Sobravam duas horas no final da última sessão, e Legge sugeriu que Furtwängler podia usá-las para gravar as "Canções de um viajante", de Mahler, com Fischer-Diskeau. O regente voltou-se bruscamente e disse: "Eu prometi Tristão, e é apenas isso que você vai ter." Eles nunca mais voltaram a trabalhar juntos.
Chegou-se então a um acordo. Legge pediu desculpas por escrito à Furtwängler por quaisquer danos causados pelos motivos "alegados". O regente, por sua vez, reconheceu a excelência da orquestra londrina de Legge e voltou atrás quanto à sua exigência de gravar em Berlim ou em Bayreuth. O elenco foi rapidamente formado. Tristão e Brangäne foram segundas opções - Lauritz Melchior foi considerado velho demais para o papel de Tristão e Martha Mödl estava prestes a cantar Isolda para o impronunciável karajan. Furtwängler enxertou Suthaus, a quem havia dirigido como Tristão em 1947; Flagstad recomendou Thebom, uma americana de origem sueca, sua protegida. Josef Greindl e Dietrich Fischer-Diskeau cantaram ótimos Rei Mark e Kurnewal. Os holofotes, no entanto, ficaram para o regente e o soprano. Flagstad canta uma Isolda capaz de derreter um iceberg, mais carinhoso do que erótico; seu amor por Tristão se aprofunda com a maturidade. Seu som enche o espaço como uma inundação, não deixando espaço algum para a descrença. Furtwängler, intelectualmente desconfortável com a indústria da gravação, jamais regera uma ópera em estúdio. Ele reprovou a sala do subsolo e o ruído dos trens passando ao lado, o que não o impediu de conduzir com tranquila segurança e assumir inspirados riscos; sua saúde estava abalada, e ele vivia ansioso por deixar um legado de sua interpretação.
Quando tudo terminou, ele colocou um braço em volta dos ombros de Legge e disse: "Meu nome será sempre lembrado por isso, mas é o seu que deveria ser." Legge revelou, em caráter privado, que este foi o único elogio que ele recebeu do maestro em quarenta gravações que fizeram juntos. Sobravam duas horas no final da última sessão, e Legge sugeriu que Furtwängler podia usá-las para gravar as "Canções de um viajante", de Mahler, com Fischer-Diskeau. O regente voltou-se bruscamente e disse: "Eu prometi Tristão, e é apenas isso que você vai ter." Eles nunca mais voltaram a trabalhar juntos.
Assinar:
Postagens (Atom)
