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domingo, 26 de julho de 2009

Mahler - Sinfonia nº 6 Orquestra Filarmônica de Londres - Klaus Tennstedt - EMI - Londres

Ninguém que tenha visto Tennstedt reger se esquecerá da incerteza prévia. A orquestra sentava-se em posição, meio que esperando o cancelamento, enquanto os minutos se passavam após o horário agendado. Então, entrando rapidamente no palco, quase tropeçando, aquela figura periclitante subia ao pódio e, com o mais inocente dos sorrisos, dava início a uma execução como nenhuma outra, antes ou depois. A essência de sua arte era a espontaneidade, o que era um anátema para o ethos perfeccionista do estúdio de gravação.
Tennstedt era um regente natural, não-intelectual, que absorveu os princípios de regência de seu pai, violinista principal na pequena cidade de Halle na ex-Alemanha Oriental, e iniciou-se no instrumento, até que um ferimento na mão acabou com sua carreira. Perseguido pelos comunistas, ele fugiu para a Alemanha Ocidental, onde viveu em provinciana obscuridade, até que uma série de coincidências o levasse a uma explosiva estréia americana em Boston, depois da qual o mundo e os selos de gravação ficaram a seus pés. Tennstedt respondeu com um sério colapso nervoso. Encontrou, porém, apoio na música de Gustav Mahler, que se tornou o leitmotiv da sua ansiosa vida. O Mahler de Tennstedt era inteiramente intuitivo, ignorante a respeito de teoria crítica e insuflado pela experiência pessoal. A Sexta, disse-me ele certa vez, antecipou em seus compassos iniciais o ruído das botas dos nazistas, e seu triste finale retrata a impotência do indivíduo em face da tirania do Estado. Estes insigths foram subliminarmente integrados às execuções, sem gestos explícitos ou explanações nos ensaios. Os concertos de Tennstedt eram enriquecidos tanto pelo impulso momentâneo como pela reflexão prévia.
Sua abordagem de Mahler era narrativa, um evento sucedendo outro, implacavelmente, até a pressão se tornar insuportável e a catarse ter lugar. Na Sexta, ele equilibra o terror do primeiro movimento com passagens de profunda compaixão, acelerando o passo até o frenesi do Scherzo, que leva a um Andante de incomparável suavidade. No desolado finale (não há nada mais desolador em todo o repertório sinfônico), ele permite algumas fendas de consolo. O público presente a um concerto da BBC Proms ficou imóvel durante os noventa minutos da Sexta, petrificado pela intensidade da interpretação. A gravação em estúdio de 1983 (EMI) não expõe o alto risco que Tennstedt cortejava, e foi excessivamente maquiada pela edição. Esta execução ao vivo, feita após o retorno do maestro de um tratamento para um câncer na garganta, é menos selvagem que o usual mas aprofunda-se com uma irresistível finalidade. O câncer e a insegurança levaram a arte de Tennstedt a um final balbuciante e trágico.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Mahler: Sinfonia nº10 - Orquestra Sinfônica de Bournemouth - Simon Ratle - EMI - Southampton

Em 1974 um garoto de 19 anos venceu um concurso de regência patrocinado por uma indústria de cigarros. O prêmio era reger, durante dois anos, uma orquestra do litoral. "Durante este período, eu considerei seriamente a idéia de desistir da regência", disse Ratle, mas já no final deste prazo ele conseguiu fazer uma gravação para a EMI.
Ratle escolheu a última sinfonia de Mahler, escrita já no leito de morte, uma obra fragmentária que foi concluída pelo produtor da BBC, Derick Cooke, e pelo regente Bertold Goldschimdt. A empreitada deles foi denunciada por Bruno Walter, discípulo do compositor, e ignorada por Bernstein e por Kubelik, que estavam gravando pela primeira vez ciclos completos das sinfonias.
Ratle, uma década mais tarde, estudou a sinfonia nº10 com Goldschimdt e desenvolveu os esboços com os compositores Colin e David Matthews. À frente de uma orquestra que tinha tudo, mas minava sua confiança, ele construiu uma versão monumentalmente segura e surpreendentemente bem executada da luta de um compositor contra as forças do amor, da falta de fé e da morte. O Adágio de abertura é rigidamente controlado, de modo a evitar a autopiedade; os dois Scherzos são febris, e o "Purgatório", inadequadamente ominoso. Mas o finale, com seus pesados ritmos de morte, é terrivelmente convincente, uma apoteose de qualidades para a mensagem de Mahler. A gravação se revelou crucial para a carreira de Ratle. Dentro de um ano ele foi nomeado regente principal em Birmingham, uma orquestra que ele moldou segundo sua personalidade jovial e eclética. A Décima de Mahler foi o trabalho que ele citou quando a Filarmônica de Berlim o convidou para reger um concerto em 1987. Os músicos vetaram a peça, por conta de sua litigiosidade, e Ratle recuou. Finalmente, ele conseguiu ensaiar a obra em 1996. Durante todo o ensaio, os músicos murmuravam: "Isso é horrível...isso não é Mahler". O concerto mudou a mente de todos. Três anos mais tarde os músicos escolheram Ratle como diretor musical em Berlim.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Mahler: Sinfonia nº4 - Orquestra de Cleveland (Severance Hall) 1966

Segundo o consenso dos especialistas, portanto confiável, a Orquestra de Cleveland foi responsável pelas melhores gravações feitas nos Estados Unidos na década em que Bernstein estava sob os holofotes em NY e Ormandy vendia muitos discos com a Orquestra da Filadélfia. A razão da excelência em Cleveland era Georg Szell, um homem de horizontes estreitos e comportamento rude.
De origem húngara ele estudou regência antes da Segunda Guerra Mundial na progressista Ópera Alemã de Praga e aplicou o rigor do velho mundo em Cleveland, mais ou menos da mesma maneira que o também húngaro Fritz Reiner fazia em Chicago. Sendo provenientes de um país que Mahler amava tanto, Reiner como Szell executaram as sinfonias do compositor muito antes do amplamente comentado ciclo de Leonard Bernstein, e por razões bem diferentes. Nenhum deles estava muito interessado em psicologia ou catarse espiritual. Para eles, Mahler era um meio de exibir os extremos da extensão dinâmica e a precisão absoluta de suas orquestras. einer gravou a quarta sinfonia em 1958 com a genuína soprano suíça Lisa della Casa e um amplo desinteresse pela busca filosófica de soluções. Szell, oito anos depois, defendeu uma perfeição nota a nota para a problemática frase inicial - feita de forma atabalhoada pelo assistente do compositor, Willem Mengelberg, e preguiçosamente mole pelo seu aluno Bruno Walter. Szell prendeu a frase numa régua metronômica, liberando assim o resto da sinfonia para fluir com liberdade ilimitada. O violino cigano do segundo movimento é apenas mais uma beleza, e não uma anomalia; o Adágio é comovente, e a solista Judith Raskin surge angelicamente e canta sem ironia o almoço das hostes do Paraíso, um dos textos mais desconcertantes de Mahler. Este é um Mahler sem indulgência, tocado tal como foi escrito, numa interpretação clínica. Muitos mahlerianos a consideram antipática, preferindo a selvageria de Bernstein e de Tennstedt ou a energia dos jovens - Abbado, Chailly, Gatti. Vários mahlerianos convictos gravaram esta sinfonia: Solti, Haitink (duas vezes cada um), Boulez e Klemperer, mas sob a regência deste último a gravação foi prejudicada pela antipática solista, Schwarzkopf. A de Szell é o padrão segundo o qual as outras gravações são avaliadas. É imaculada em todos os detalhes; sua perfeição é quase sobre-humana.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mahler: Das Lied Von der Erde (A Canção da Terra) - Christa Ludwig, Fritz Wunderlich - Orquestra Philarmonia - Otto Klemperer EMI-Londres

Mahler não viveu o bastante para ouvir A Canção da Terra. É tocável?, perguntou ele a Bruno Walter. "Será que as pessoas não vão querer fugir ao ouvi-la?" Foi um trabalho angustiado, motivado pela morte de uma filha ainda bebê, pela perda de seu posto em Viena e pelo agravamento de seu estado de saúde. Walter dirigiu a estréia em 1912, um ano após a morte de Mahler, e fez as duas primeiras gravações, a primeira em Viena, em 1936 (nenhum cantor austríaco participou nessa ocasião, por medo das sanções dos nazistas) e novamente em 1952, com o tenor austríaco Julius Patzak e a meio-soprano britânica Kathleen Ferrier, gravação esta que marcou o começo da reabilitação de Mahler no pós-guerra. Mais do que qualquer outro regente, Walter exsuda autoridade e serenidade nessa obra, uma garantia de que nem tudo estava perdido.
Klemperer, o outro acólito do compositor, escolheu uma abordagem oposta. Contestador onde Walter era condescendente, avesso a qualquer desejo de agradar, ele esperou doze anos até encontrar o par ideal de cantores e uma interpretação apropriadamente rigorosa. Sua versão chocou os críticos londrinos, um dos quais, John Amis, declarou-a "tão determinantemente anti-Walter que evita qualquer sentimento". Isso, entretanto, era o que Klemperer defendia: uma obra deve ser aberta à contradição, e sempre havia mais aspectos em Mahler do que aqueles que qualquer músico mortal poderia monopolizar. Ele regeu as seis canções de modo convincente e sem reserva sonora. O som é mais anguloso do que o creme vienense de Walter, com o fogo diminuído para uma temperatura mais adequada. A intensidade dos poemas chineses intensifica a aura de alienação. Sugestões de alegria e consolo são ilusórias: "Escura é a vida, é a morte." A natureza, em toda a sua beleza, é algo que todo homem deve deixar para trás, e cada frase flutuante do oboé ou da clarineta é uma dor provocada pela futura partida. Klemperer mantém seu controle implacavelmente até cerca de dois terços da Abschied (Despedida), quando então permite que as emoções fluam livremente. A catarse originada da supressão prolongada é fisicamente arrebatadora, como Klemperer sabia que teria que ser.
Não seria fácil conseguir reunir os dois solistas em um estúdio, pois suas agendas eram cheias; a solução foi gravá-los separadamente. Christa Ludwig foi a mais inteligente entre as meio-sopranos, e Fritz Wunderlich estava chegando à fama mundial. Dois meses depois desta gravação, ele se envolveu em um acidente doméstico com uma arma de fogo e morreu antes de o disco ser lançado. Tingida de drama, esta versão da Canção da Terra adquiriu uma nobreza estóica que acabou por tornar-se, com o tempo, a norma interpretativa.

domingo, 17 de maio de 2009

Mahler, Sinfonia nº 9 - Orquestra Filarmônica de Viena - Bruno Walter - EMI Viena Musikvereinsaal 16 de Janeiro de 1938

Em 16 de Janeiro de 1938, Bruno Walter regeu a Filarmônica de Viena na nona sinfonia de Gustav Mahler, obra que eles haviam estreado juntos 25 anos antes, alguns meses depois da morte do compositor. Arnold Rosé, cunhado de Mahler, ainda era o spalla da orquestra, mas a música de Mahler havia sido banida da Alemanha por racismo e era rejeitada por seu emocionalismo nos contidos países de língua inglesa. Com Adolf Hitler batendo aos portões, a platéia nervosa sabia que poderia estar ouvindo esta música pela última vez em sua vida. Nas primeiras fileiras estava a viúva de Mahler, Alma, e o chanceler austríaco Kurt Schuschnigg, que semanas mais tarde, entregaria o seu país ao Terceiro Reich. Muitos naquela sala (seis na orquestra) morreriam em campos de de concentração. Como um pressentimento trágico, esse disco tem poucos paralelos na civilização ocidental, desde as inscrições na parede no banquete bíblico de Baltazar.*
Como execução musical, a gravação é ainda mais presciente. O início é ameaçadoramente solene, mas sem medo, imponente e tranquilo. À medida que o andamento se acelera, a música começa a se afirmar como um corajoso desafio, um fantasioso desligamento que ignora os esmagadores coturnos dos eventos políticos. As ironias do segundo movimento são destacadas causticamente, e , no rondó burlesco, a orquestra fica à beira da temeridade. O tenso finale evita a tentação do consolo, optando por enfrentar sem concessões um futuro inevitavelmente sombrio. O solo de despedida de Rosé é profundamente tocante, mas com uma linha firme e calma. Semanas mais tarde, ele foi agredido por capangas uniformizados e forçado a fugir para Londres, onde morreu na miséria ao final da guerra, sabendo que sua filha violinista, Alma, havia sido assassinada em Auschwitz. Fred Gaisberg tirou de circulação esta primeira gravação da última sinfonia de Mahler, ciente de que seu pequeno potencial de mercado estava diminuindo ainda mais. Quando acabou de fazer uma primeira edição rudimentar do material, Walter já era um refugiado sem teto na Holanda e tentava conseguir um visto para a Inglaterra ou Estados Unidos. O regente criticou alguma aspereza nas cordas, mas decidiu que a gravação deveria ser lançada de qualquer maneira. Ela apareceu pouco antes da guerra, e algumas cópias chegaram à Europa ocupada pelos nazistas. Em Praga, jovens compositores se reuniram no apartamento de Viktor Ulmann para extrair resistência desta música proibida. Ulmann, que dedicara sua única sonata para piano à memória de Mahler, foi deportado, junto com a maioria de seus colegas, para Theresienstadt e acabou morrendo na câmara de gás de Auschwitz.

* Daniel 5-6.