Rachmaninov mostrou-se sempre generoso para com os jovens pianistas de talento, sempre disposto a orientá-los na interpretação de suas obras, sem preocupar-se com a rivalidade que eles poderiam representar para a sua própria e bem paga carreira de solista. Nos primeiros meses da Grande Depressão, ele ouviu algo a respeito de um jovem exilado russo que tocova as músicas dele melhor do que ninguém. Ele cruzou por acaso com Vladimir Horowitz no subsolo da loja da Steinway, em NY, e acompanhou-o, um piano após o outro, numa execução a quatro mãos do Concerto em Ré Menor. "Horowitz, disse Rach mais tarde, absorveu-o por inteiro...ele tinha coragem, intensidade e ousadia."
O Concerto em Ré Menor lançou Horowitz para uma carreira fenomenal. Antes desta gravação, tocou-o em Chicago, Cincinatti, NY, Filadélfia, Boston, Berlim, Amsterdã e, finalmente, Londres, onde foi para o estúdio com um regente britânico que havia dirigido a Ópera de São Petersburgo antes da revolução. Diferente da gravação efusiva e alegre do compositor, a de Horowitz explora o lado escuro onde Rach, ele próprio depressivo, não ousara se aventurar. Ele fez das tremendas dificuldades técnicas uma brincadeira de criança, executando passagens rápidas com o dobro da velocidade, para então frear precipitadamente no adágio. Essa velocidade simples torna a gravação irresistível, mas há também uma perigosa corrente de desequilíbrio mental - do tipo que afetou o pianista David Helfgott.
Horowitz foi hospitalizado duas vezes, após sofrer colapsos nervosos. O Concerto tornou-se sua marca registrada, sendo regravado a cada vez que ele saía do isolamento, como que para reafirmar a sua maestria incomparável (o próprio Rachmaninov deixou uma gravação luminosa, como também o britânico Stephen Hough, usando as anotações do compositor).
Horowitz, no entanto, ficou com o selo da autoridade. Depois de sua apresentação ao vivo em 1942 no Holliwood Bowl, o compositor, já no final da vida, subiu ao palco e anunciou que aquela havia sido exatamente a maneira como ele sempre sonhara que o Concerto deveria ser tocado.
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domingo, 17 de maio de 2009
Rachmaninov - conc. para piano nº2 - Orquestra da Filadélfia - Leopold Stokowski - RCA Sony BMG - Filadélfia 10 e 13 Abril, 1929
Famoso por ter sido composto após um colapso nervoso que se seguiu à desastrosa estréia de sua sinfonia nº1, este concerto foi o cartão de visita de Rachmaninov como solista. Exilado pela revolução,ele o gravou pela primeira vez em 1924, com Leopold Stokowski e sua formidável orquestra da Filadélfia. O álbum com cinco discos, no entanto, se tornou obsoleto com a chegada da gravação elétrica.
Permanentemente em turnê, Sergei sofreu outra crise de depressão, desencadeada pelo desejo de rever as intermináveis paisagens russas. Seu quarto concerto fracassou. Stokowski conseguiu que o segundo fosse gravado novamente, mas enfureceu o compositor com os cortes feitos na partitura, na tentativa de espremer a peça em quatro discos. Rachmaninov, que acatara cortes feitos em todas as outras obras, em especial nas sinfonias, recusava-se a reduzir o concerto em Dó menor, em uma nota que fosse. Ele executou-o sem qualquer alteração na Filadélfia, num estado de tensão que pode ser sentido na gravação; era como se o regente e a orquestra estivessem dançando sobre cascas de ovos em volta dele. O toque de Rachmaninov era delicado para um homem de tal porte e força, desafiando o peso de seus dedos em longas e suaves passagens do Adágio, enquanto Stokowski lutava como que com uma carroça puxada por cavalos fogosos. É o conflito, tanto como a maestria, que torna essa execução inesquecível.
Ela nunca saiu de catálogo, muito embora um erro da RCA em 1952 tenha resultado na substituição de algumas passagens por tomadas rejeitadas, uma anomalia que passou despercebida durante trinta e seis anos, até que o relançamento em CD alertou os mais atentos. Além de ser o guia definitivo para a interpretação do concerto mais popular do século, esta é uma das poucas gravações que existem, tal como uma escultura de Rodin, em fôrmas alternativas, fáceis de usar.
Permanentemente em turnê, Sergei sofreu outra crise de depressão, desencadeada pelo desejo de rever as intermináveis paisagens russas. Seu quarto concerto fracassou. Stokowski conseguiu que o segundo fosse gravado novamente, mas enfureceu o compositor com os cortes feitos na partitura, na tentativa de espremer a peça em quatro discos. Rachmaninov, que acatara cortes feitos em todas as outras obras, em especial nas sinfonias, recusava-se a reduzir o concerto em Dó menor, em uma nota que fosse. Ele executou-o sem qualquer alteração na Filadélfia, num estado de tensão que pode ser sentido na gravação; era como se o regente e a orquestra estivessem dançando sobre cascas de ovos em volta dele. O toque de Rachmaninov era delicado para um homem de tal porte e força, desafiando o peso de seus dedos em longas e suaves passagens do Adágio, enquanto Stokowski lutava como que com uma carroça puxada por cavalos fogosos. É o conflito, tanto como a maestria, que torna essa execução inesquecível.
Ela nunca saiu de catálogo, muito embora um erro da RCA em 1952 tenha resultado na substituição de algumas passagens por tomadas rejeitadas, uma anomalia que passou despercebida durante trinta e seis anos, até que o relançamento em CD alertou os mais atentos. Além de ser o guia definitivo para a interpretação do concerto mais popular do século, esta é uma das poucas gravações que existem, tal como uma escultura de Rodin, em fôrmas alternativas, fáceis de usar.
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