Mostrando postagens com marcador Stravinsky. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stravinsky. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Stravinsky: A Sagração da Primavera - Scriabin: Poema do Êxtase - Orquestra de Kirov - Valery Gergiev - Philips- Baden-Baden

Igor Stravinsky gravou a peça que lhe deu notoriedade duas vezes, com andamentos completamente diferentes. Pierre Monteux, que regeu a tumultuada estréia em Paris (1913) também fez duas gravações inconsistentes. O compositor desprezava os intérpretes modernos, descartando Karajan e Boulez por abuso pessoal; ao que parece, nenhuma versão podia satisfazê-lo. A partitura um sí é contraditória: por um lado, possuía as marcações matematicamente precisas de Stravinsky e, pelo outro, a bucólica selvageria da dança sagrada, uma metáfora da inata falta de regras da Mãe Rússia. Esta não é uma peça que possa ser interpretada com total segurança. A menos que pareça perigosa, a execução naufraga. Em disco, Bernstein e Rattle, ainda muito joven (com a Orquestra Jovem da Grã-Bretanha) chegam o mais perto possível da selvageria exigida. Numa noite de verão, em Rotterdam, eu ví uma dupla de pianistas ensaiando uma versão para dois pianos, sacudindo os nervos e as janelas da cidade. Quando terminaram, Valery Gergiev encontrou um piano de ensaio nos bastidores e tocou a peça novamente em particular, com uma frieza ameaçadora. A fúria das danças foi mantida em xeque até perto do final, e a ameaça de violência soou mais terrível do que a de um verdadeiro banho de sangue. Esta supressão do desejo parecia atingir o coração da dicotomia stravinskiana.
Eu fiquei até as quatro horas da madrugada caminhando ao lado de Gergiev pelas ruas de Rotterdam, discutindo os méritos relativos de Stravinsky e Prokofiev (que ele preferia). De origem caucasiana, criado dentro da fechada aristocracia soviética (seu tio foi o projetista de tanques preferido de Stalin), Gergiev não teve acesso algum ao ao mundo mental do ocidentalizado Stravinsky, que teve babás francesas, e também não nutria nenhuma simpatia por esses luxos. Sua visão da Sagração era intuitiva, ele sabia de onde ela brotava: dos sarcásticos rituais de rivalidade tribal que criaram seu país. Esses rituais estão no coração da Sagração, selvagens e circunspectos; pertencem a uma civilização que precede a civilização. Este é o habitat de Gergiev, e ele reina nele como um leão. Nada é respeitado nesta interpretação, a não ser a deferência devida a um conquistador. O fraseado - tão complicado que muitos maestros reescrevem a partitura sem barras de compasso - é tratado com maestria casual. A Orquestra de Kirov toca como se os músicos estivessem possessos. Nunca houve uma sagração como essa.

sábado, 20 de junho de 2009

Stravinsky: The Edition - Sacred Works - Vários artistas e orquestras, sob a direção do compositor CBS Sony BMG

Igor Stravinsky foi o primeiro compositor a ter toda a obra gravada em vida. Não apenas em vida, como no processo de trocar de estilos que fizeram a sua fama - balé russo e neoclassicismo - para as regiões distantes e não-comerciais da corrosiva atonalidade. "Como ele mesmo disse, Stravinnsky sobreviveu à sua própria popularidade", escreveu seu amigo Goddard Lieberson, presidente da Columbia Records, em 1962. "Ele não sucumbiu a ela, nem se deixou congelar num período popular de sua música...ele continua a ser um vigoroso e jovem criador. "
Stravinsky prestou um tributo recíproco. Lieberson, disse ele, "praticamente se voltou para o compositor moderno, em vez de se ocupar com as mediocridades estabelecidas entre os executantes". O projeto de gravação de suas obras completas, que começou em 1947 e continuou até sua morte, em 1971, deu a ele total controle artístico. Ele ora regia pessoalmente, ora, à medida que sua saúde ia se debilitando com a idade, supervisionava a interpretação de seus trabalhos sob a direção de seu competente assistente, Robert Craft. Sua principal preocupação era a fidelidade textual. "Eu adoro minha música - me desculpe" ele dizia a qualquer músico que se desviasse. "Stravinsky tinha um ouvido incansável para nuances de interpretação e nunca dava sua aprovação a não ser que estivesse completamente satisfeito", lembra a esposa de Lieberson, Vera Zorina. As execuções não são sempre as mais entusiasmadas ou ritmicamente consistentes, em especial nas furiosas danças da juventude do compositor, indispensáveis por estabelecerem uma conexão entre o lirismo expressivo e o modernismo analítico. O volume de obras sacras contém algumas das suas peças menos conhecidas, que são também as mais sinceras. Trreni,* embora adstringentemente atonal, poderia passar despercebido na liturgia de qualquer catedral ortodoxa, tão enfática é a forma que Stravinsky, como regente, dá à sua estrutura arqueada. O "Canticum Sacrum", escrito para a basílica de São Marcos, em Veneza (cidade que o compositor escolheu para ser enterrado), mostra-se como uma peculiar e tangencial reverência ao ritual católico, buscando relevância numa época moderna que logo aboliria o latim como língua de oração. Um intróito em memória de seu amigo T. S. Eliot é o lugar de uma metáforica "Terra Devastada", embora em cores muito mais profundas que os pastéis do poeta. As "Variações Sobre um Coral de Natal de Bach" poderiam muito bem ter feito sucesso no mercado de presentes de fim de ano, muito embora as tias solteironas pudessem se chocar com certas sonoridades. O frescor da invenção de Stravinsky nestes trabalhos raramente executados é espantoso, e a coragem da CBS em promover sua gravação integral foi um ato de fé que chamou pouca atenção em meados do século, mas que logo seria extinto pela ditadura das empresas.


* Trreni (lamentações) com texto das lamentações de Jeremias, composta em 1948, é considerada sua primeira obra inteiramente serial.