sábado, 20 de junho de 2009

Stravinsky: The Edition - Sacred Works - Vários artistas e orquestras, sob a direção do compositor CBS Sony BMG

Igor Stravinsky foi o primeiro compositor a ter toda a obra gravada em vida. Não apenas em vida, como no processo de trocar de estilos que fizeram a sua fama - balé russo e neoclassicismo - para as regiões distantes e não-comerciais da corrosiva atonalidade. "Como ele mesmo disse, Stravinnsky sobreviveu à sua própria popularidade", escreveu seu amigo Goddard Lieberson, presidente da Columbia Records, em 1962. "Ele não sucumbiu a ela, nem se deixou congelar num período popular de sua música...ele continua a ser um vigoroso e jovem criador. "
Stravinsky prestou um tributo recíproco. Lieberson, disse ele, "praticamente se voltou para o compositor moderno, em vez de se ocupar com as mediocridades estabelecidas entre os executantes". O projeto de gravação de suas obras completas, que começou em 1947 e continuou até sua morte, em 1971, deu a ele total controle artístico. Ele ora regia pessoalmente, ora, à medida que sua saúde ia se debilitando com a idade, supervisionava a interpretação de seus trabalhos sob a direção de seu competente assistente, Robert Craft. Sua principal preocupação era a fidelidade textual. "Eu adoro minha música - me desculpe" ele dizia a qualquer músico que se desviasse. "Stravinsky tinha um ouvido incansável para nuances de interpretação e nunca dava sua aprovação a não ser que estivesse completamente satisfeito", lembra a esposa de Lieberson, Vera Zorina. As execuções não são sempre as mais entusiasmadas ou ritmicamente consistentes, em especial nas furiosas danças da juventude do compositor, indispensáveis por estabelecerem uma conexão entre o lirismo expressivo e o modernismo analítico. O volume de obras sacras contém algumas das suas peças menos conhecidas, que são também as mais sinceras. Trreni,* embora adstringentemente atonal, poderia passar despercebido na liturgia de qualquer catedral ortodoxa, tão enfática é a forma que Stravinsky, como regente, dá à sua estrutura arqueada. O "Canticum Sacrum", escrito para a basílica de São Marcos, em Veneza (cidade que o compositor escolheu para ser enterrado), mostra-se como uma peculiar e tangencial reverência ao ritual católico, buscando relevância numa época moderna que logo aboliria o latim como língua de oração. Um intróito em memória de seu amigo T. S. Eliot é o lugar de uma metáforica "Terra Devastada", embora em cores muito mais profundas que os pastéis do poeta. As "Variações Sobre um Coral de Natal de Bach" poderiam muito bem ter feito sucesso no mercado de presentes de fim de ano, muito embora as tias solteironas pudessem se chocar com certas sonoridades. O frescor da invenção de Stravinsky nestes trabalhos raramente executados é espantoso, e a coragem da CBS em promover sua gravação integral foi um ato de fé que chamou pouca atenção em meados do século, mas que logo seria extinto pela ditadura das empresas.


* Trreni (lamentações) com texto das lamentações de Jeremias, composta em 1948, é considerada sua primeira obra inteiramente serial.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Rodrigo: Concierto de Aranjuez - John Williams - Orquestra da Filadélfia - Eugene Ormandy - CBS Filadélfia Town Hall, Dezembro de 1965

O concerto mais popular do século XX, depois do Concerto nº2 de Rachmaninov, foi escrito por um cego, sob a tirania fascista e ambientado no esplendor cortesão e escapista de um jardim do séc. XIX da dinastia Bourbon. O primeiro e o último movimento não são grande coisa, mas o Adágio central desfalece de desejos inatingíveis. Após quatro acordes no violão, o corne inglês inicia seu maior solo depois da Sinfonia do Novo Mundo, de Dvórak; muito da magia que se segue está no diálogo entre esses dois instrumentos. O tema apaixonado de Rodrigo inspirou Miles Davis em "Sketches of Spain", e foi adaptado às palavras "mon amour" pelo cantor francês Richard Anthony. Sua atração, disse o compositor, tem origem na "síntese entre o clássico e o popular, tanto em forma como em emoção." Contudo não foi tanto a unidade, mas as sugestões de fragilidade e fragmentação que deram ao tema seu apelo universal.Rodrigo, cego em conseqüencia da difteria aos três anos de idade, estava vivendo na pobreza e sentia muito medo (sua esposa era estrangeira e judia) em 1940, quando escreveu Aranjuez para o instrumento nacional, o violão, tornando-se um ícone instantaneamente. Pianista capaz, ele negou sequer ter tentado um dia tocar violão, e não ficou ofendido quando o grande Andrés Segovia rejeitou o concerto, alegando que várias passagens estavam escritas na tonalidade errada e parte da música fazia seu violão soar como um bandolim. (Rodrigo compensou-o mais tarde com uma música mais gratificante: "Fantasia para un Gentilhombre"
Pela necessidade de se ter uma estrela espanhola, o concerto ficou disponível para apropriações. O inglês Julian Bream o estreou em disco com uma interpretação que exagerou no sentimentalismo. Mas o homem que pôs fogo nas lojas de disco foi o jovem australiano John Williams, que havia recebido as bençãos de Segovia a caminho de Londres e fez seu disco de estréia sob os auspícios da afinada sobrinha de Fred Gaisberg, Isabella Wallich. Williams, contratado pela CBS, era a própria imagem dos anos 60, com seus longos cabelos escuros e camisa folgada. O selo, por razões obscuras, colocou-o junto à solene Orquestra da Filadélfia, dirigida por Eugene Ormandy, que nunca foi visto sem terno e gravata e sabia tudo a respeito de clássicos populares, por ter trabalhado com Rachmaninov. Seja por acidente ou por desígnio, a dupla produziu um sucesso duradouro, uma atração de opostos.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Wagner - O Anel dos Nibelungos - Orquestra Filarmônica de Viena - Georg Solti - Decca -Viena

Com uma duração total de quatro noites, ou quinze horas, o ciclo do "Anel dos Nibelungos" de Wagner era longo demais para o disco antes do LP, inviável antes do estéreo e incompatível com os orçamentos que as gravadoras alocavam nos anos 50 e com o que os consumidores estavam dispostos a gastar. O projeto da Decca começou com uma visão do jovem produtor John Culshaw, que visitou Bayreuth e ficou abismado com o nível de ruído de palco que era captado por seus microfones. Caso o Anel viesse a ser gravado, argumentou ele, isso teria de ser feito em estúdio. Ele precisou de seis anos até conseguir o sinal verde para uma versão experimental do "Ouro do Reno", a mais curta das peças do pacote.Culshaw se instalou em uma casa de banhos desativada em Viena, com a melhor orquestra da Europa ao alcance de uma rápida viagem de ônibus. O ciclo era tão raro em países de lingua inglesa que Culshaw era a única pessoa da equipe que já o tinha assistido integralmente no palco. Seu regente era um judeu húngaro prematuramente calvo, que tinha sua base em Frankfurt e era desprezado pelos músicos da Filarmônica de Viena. Os riscos eram perigosamente altos, mas Georg Solti tinha uma abordagem grandiosa do Anel, que Culshaw havia retrabalhado como um conceito puramente aural, livre das distrações visuais. O engenheiro de som Gordon Party foi instruído a simular os sons de cavalgadas e bigornas, quando fosse preciso, sem relinchos e pancadas desnecessárias. Tudo foi organizado para ser apreciado apenas com os ouvidos. Os cantores se distribuíram por três gerações. Kirsten Flagstad, seduzida a deixar sua aposentadoria nos fiordes, cantou Fricka no "Ouro do Reno"; Brunhilde foi interpretada pela inspirada sueca Birgit Nilsson. As donzelas do Reno incluíram a jovem Lucia Popp e Gwyneth Jones; Christa Ludwig foi Wautraute; Joan Sutherlan cantou o pássaro da floresta. Wolfgang Windgassen foi Sigfried, George London e Hans Hotter cantaram Wotan e Dietrich Fischer-Diskeau foi Gunther no "Crepúsculo dos Deuses. Solti impôs sobre as sessões (que se estenderam por sete anos), um controle sobre-humano, nunca tão sutil quanto Knappertsbusch ou Furtwängler, mas de maneira geral, mais acurado. O Anel da Decca fez seu nome internacionalmente e criou um conceito de perfeição em ópera que jamais pôde ser reproduzido no palco.Num empreendimento de tanta magnitude, os detalhes podem ser distorcidos, mas tal foi a consistência do duplo controle exercido por Culshaw e Solti que a menor das partes reflete a grandeza do todo. A introdução orquestral do "Crepúsculo dos Deuses", seguido pelo canto das três Norns - Helen Watts, Grace Hoffman, Anita Välkki - é uma das mais impressionantes sequëncias jamais gravadas, não apenas como prelúdio, mas como um drama autônomo, um ato por si mesmo. Seguida por uma contida Nilsson ao nascer do sol, reservando suas fúrias para o final, a música exerce um efeito hipnótico, irresistível e inesquecível. O mundo germânico, temendo a perda de sua herança, respondeu com gravações do Anel com Karajan, em Berlim, e com Böhm, em Bayreuth. Um Anel totalmente francês, em comemoração ao centenário da obra, dirigido por Patrice Chereau e regido por Pierre Boulez, foi filmado em treze episódios para a TV, em 1976, em Bayreuth. Mais Anéis se seguiram, com Sawalish, Haitink, Janiwsky e Levine. Nenhum deles se iguala ao de Solti em coerência, clareza ou admiração espiritual diante da criação e destruição do mundo.Do mesmo modo, nenhum outro produtor reproduziu a missão democrática de Culshaw. "A doença da ópera", escreveu Culshaw, "é que ela é uma loja fechada, muito cara e exclusiva. Richard Wagner detestava essa atitude cem anos atrás, e apenas agora nós estamos fazendo progresso na direção de uma mudança. Se, mesmo para uma pequena parcela, o Anel gravado em disco contribuiu para essa mudança, acredito que todos nós, de alguma forma conectados com isso, temos uma razão para nos alegrar." Esse ideal artístico foi confirmado pelas maiores vendas jamais alcançadas por uma gravação clássica, resultado que significa que muito mais pessoas ouviram o Anel em disco do que o assistiram no teatro.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Elgar: Concerto para Violoncelo, Sea Pictures - Jacqueline du Pré, Janet baker - Orquestra Sinfônica de Londres - John Barbirolli - EMI Londres

O maior concerto inglês foi gravado de maneiras diferentes por Casals, Fournier, Tortelier e Rostropovich, sem contudo encontrar um intérprete definitivo em outras terras. Numa tarde quente de Agosto de 1965, uma garota de vinte anos, com jeito simples, sorriso maravilhoso e cabelos loiros até a cintura, subiu no palco do Kingsway Hall e se juntou a Sir John Barbirolli e a Orquestra Sinfônica de Londres para uma gravação para a EMI. A orquestra estava, por motivos internos, hostil em relação a jovens pretendentes. O regente estava empenhado em apoiar sua protegida estreante.
Depois de duas sessões tensas e desagradáveis, com metade da obra gravada, Jackie pediu licença e foi até a farmácia comprar remédios para dor de cabeça. Quando ela voltou, encontrou a estúdio cheio de curiosos. Havia circulado a notícia de que um prodígio estava acontecendo, e todos os músicos próximos a uma estação do Metrô correram para lá, na esperança de assistir o Finale. Poucas sessões de estúdio contaram com tamanha platéia. Em vez da maestria e possessividade com que Casals abordou essa obra, Du Pré inicia o concerto suave e refletidamente, ficando mais expansivo até que a paixão domine completamente, subindo e descendo em busca da catarse. Elgar infundira em seu concerto, escrito ao final da Primeira Guerra Mundial, um sentimento de pesar por um mundo destruído. Du Pré encontrou dimensões mais jovens - angústias de amor, medo da morte - e varreu tudo o que fora feito antes dela, nessa obra que dá ao solista apenas cinco compassos de descanso do início ao fim. Trata-se de uma performance musical definitiva - se é que jamais houve alguma. Rostropovich, ao ouvir essa gravação, excluiu a peça do seu repertório. A geração seguinte de violoncelistas fez dela seu modelo.
Du Pré veio a conhecer uma dupla celebridade - por mérito próprio e como esposa de Daniel Barenboim, com quem casou em Israel, logo após a Guerra dos Seis Dias. Eles chegaram a gravar o concerto juntos em Filadélfia em 1970, mas os pressentimentos de uma terrível doença - ela abandonou a carreira com esclerose múltipla em 1973 e morreu em 1987 - prejudicaram a segunda versão. O disco de 1965 (ao lado da inspiradora versão de Janet Baker de Sea Pictures) foi o momento mais alto de Jacqueline du Pré. Ao ouvir a gravação pela primeira vez, ela debulhou-se em lágrimas e disse: "Não foi nada disso o que eu quis dizer."

domingo, 14 de junho de 2009

Bernstein: Chichester Psalms (Salmos de Chichester) - John Bogart (alto) -Camerata Singers - Orquestra Filarmônica de NY - Leonard Bernstein

Com as exceções de Bruckner e Scriabin, Bernstein gravou praticamente todos os grandes sinfonistas clássicos contemporâneos, alguns deles duas vezes, bem como qualquer compositor americano digno de nota, vivo ou morto. Expansivo no pódio, saltando mais que qualquer outro maestro fora das Olimpíadas, os entusiasmos de Bernstein foram atenuados em disco pelo som excessivamente brilhante dos seus dias de CBS, ao passo que a sua segunda chegada, pela DG, foi quase sempre irregular em andamento e expressão, com as linhas argumentativas curvadas ao capricho da sua fantasia do momento. Em termos de clareza e precisão em gravação, Bernstein foi freqüentemente superado por Karajan, Haitink e Solti, seus rivais europeus.
Na música americana, contudo, ele foi indiscutivelmente um líder. Nenhum outro maestro fez mais para elucidar o tortuoso gênio de Charles Ives, a quem ele chamava de "Grandma Moses" da música*, os timbres vívidos de Aaron Copland, as paisagens de Norman Rockwell musicadas por Roy Harris, as consolações de Samuel Barber - acima de tudo, o suingue de George Gershwin, com quem tinha grande afinidade. A música sinfônica da qual foi autor sofreu o impacto do seu sucesso como regente e como compositor da Broadway. Os críticos depreciaram duas das suas três sinfonias, aceitando apenas "Age of Anxiety" como obra válida, e a Missa que ele escreveu para os Kennedy foi imediatamente desqualificada, com certa razão, por sua embaraçosa intemperança. Eclético e por vezes volúvel, Bernstein não conseguia manter a concentração necessária para sustentar uma obra sinfônica importante que não contasse com distrações de palco e exibicionismo.
São duas as excessões a essa regra: a platônica "Serenata para Violino e Orquestra", patrocinada por Isaac Stern, e os "Salmos de Chichester", encomendados por um pároco progressista de uma catedral inglesa. Bernstein assumiu o desafio com uma ingenuidade brincalhona. Ele compôs versos a partir de três salmos em hebraico bíblico, uma língua mais antiga que o cristianismo e jamais cantada em recintos consagrados anglicanos. Os textos extravasam exaltação lírica e amor a um só Deus - palavras que proporcionam júbilo quando cantadas ou ouvidas, com um delicioso solo para menino soprano na seção central, acompanhado por uma harpa davidiana e ritmos cruzados percussivos. Bernstein terminou o trabalho em Maio de 1965, fez a estréia na Inglaterra em Julho e levou-a ao estúdio de gravação assim que voltou aos EUA, de modo que os LPs estavam nas lojas antes do Natal. "Como é bom e agradável ver os irmãos vivendo juntos em harmonia", é a mensagem ecumênica nas entrelinhas.

*Anna Mary Moses (1860-1961), mais conhecida como "Grandma Moses" foi uma consagrada pintora americana, muito citada como exemplo de pessoa que fez sucesso em uma carreira iniciada tardiamente.

sábado, 13 de junho de 2009

Schubert: Duos para Piano - Benjamin Britten, Sviatoslav Richter - Decca - Aldenburgh, Igreja de Parish e Jubilee Hall, Junho de 1964, Junho de 1965.

Nos diálogos musicais , um instrumentista ou outro sempre tenta liderar, tocar mais forte, impor o ritmo. E quando um compositor famoso senta-se em um lado do piano, o protocolo exige que qualquer executante no outro lado dê a preferência. Não existe igualdade num duo. Esta gravação é uma rara exceção.
Em Junho de 1964, o pianista russo Sviatoslav Richter e sua esposa chegaram ao festival de Aldenburgh como convidados do fundador, Benjamin Britten. Mal havia se instalado no modesto hotel East Anglian, e Richter pediu para tocar para o público de Britten. O compositor encontrou-se com ele numa hora vaga no meio da manhã e, de repente, puxou um banquinho e sentou-se ao seu lado. Quando se manifestava em caráter privado, Britten considerava-o "o maior pianista de todos os tempos".
Ouça o mais atentamente que puder: você não será capaz de dizer qual dos dois toca o primeiro ou o segundo piano nas "Variações em Lá Bemol Maior", tais foram o respeito mútuo e a sensibilidade deles. Os críticos entortaram os pescoços para ver qual dos dois controlava os pedais, mas isso não importava, pois era um diálogo parnasiano no qual nenhum deles moderava seu ímpeto ou cedia ao outro, e sim, juntos, encontravam um plano elevado de discurso. De certa forma, era Hausmusik, uma recreação doméstica tocada por dois membros da família à luz de velas entre o jantar e a hora de dormir. Mas o fluxo e o refluxo das variações revelam sombras na mente do compositor, ansiedades de doença e morte que são ainda mais flagrantes na execução feita pela dupla no ano seguinte, da sombria "Fantasia em Fá menor", um dos últimos trabalhos do compositor. Os dois recitais foram transmitidos pela BBC e lançados pela Decca. Não há nada igual em disco.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Ives: Sinfonia nº4 -Orquestra Sinfônica Americana - Leopold Stokowski - CBS NY, Carnegie Hall, 25 de Abril de 1965.

Charles Ives foi um modelo de norte-americano. Milionário do ramo de segurança por esforço pessoal, ele escreveu música sinfônica que ia do amadorismo banal à intocável complexidade, e conservou a maior parte de seus trabalhos numa gaveta por décadas, com medo de rejeição. Depois de sua morte, em 1954, Leopold Stokowski, com seu olho para o espetacular, fez, em Houston, duas tentativas de estrear a massiva sinfonia nº4, que inclui coro, um conjunto de câmara separado e uma seção de percussão com sinos e gongos - e que inicia com o típico hino de igreja rural ("Watehnon, tell us of the nigth") ("Vigia, diga-nos como está a noite") que é cantado nos filmes B de faroeste, quando os bandidos estão para entrar na cidade. Integrar uma despojada simplicidade com a complexidade tonal das passagens seguintes, baseadas na sua espinhosa sonata para piano, é apenas um dos desafios desta peça frustrantemente difícil. Stokowski chegou a desistir duas vezes, desanimado com a escrita inadequada e as polirritmias contraditórias que jogavam a orquestra numa confusão cacofônica. Conseguir que todos tocassem juntos estava além da capacidade de um único homem. As coisas ainda pioraram. O segundo movimento caminha junto com os Pioneiros Peregrinos através de pântanos e florestas (e as discordâncias da segunda sonata de Ives) antes de encontrar a redenção nas comemorações do dia 4 de Julho e em algumas insinuações de jazz primitivo. A fuga é baseada em parte no quarteto para cordas de Ives, e o finale, elucidativamente, no hino religioso "Nearer My God to Thee" ("Mais perto de Deus").
Stokowski resolveu o problema empregando dois regentes auxiliares - David Katz e José Serebrier - que marcaram os contra-ritmos. De repente, tudo entrou nos eixos e Ives foi revelado como o criador da maior sinfonia americana, uma evocação errante, energética, não-discursiva e pouco escrupulosa do momento nacional. Para a regente, na casa dos oitenta anos, foi a apoteose do seu compromisso com a música moderna. A gravação foi feita ao vivo, por receio que a execução desta obra jamais fosse repetida, em razão do alto custo e da complexidade. Nenhuma gravação subseqüente capta o mesmo impacto causado pela descoberta de um continente musical.